Água do joelho

Enquanto muitas cidades crescem sem os necessários equipamentos públicos, aqui em Porto Seguro ainda sofremos o paliativo da quadra esportiva construída em praça de lazer, onde nunca falta também um quiosque para um apadrinhado do prefeito de plantão montar um botequim.

Verdadeiras praças de esportes ou centros esportivos, nem pensar. Parecem coisas somente imagináveis em outro planeta. Centros de convivência, então, onde poderiam ser desenvolvidos projetos culturais, relacionamentos interpessoais, ou até mesmo serem oferecidas simples e decentes instalações sanitárias ao público… é demais para o padrão de compromisso de nossos governantes.

É por isto que o motorista do carro de som do Renato parou justamente em frente a um terreno baldio. O motorista atravessou os fartos montes de entulhos e de lixo, depositados no terreno por moradores mal educados e sem fiscalização, e se embrenhou no matagal para tirar água do joelho.

Neste ínterim, o carro de som do Renato continuou anunciando a campanha de combate à dengue: “Receba bem o agente de saúde! (…)”. Ouvindo isto, os milhares de mosquitos que se amavam nos pneus e embalagens pet espalhadas pelo terreno baldio devem ter comemorado o fracasso da estratégia de seus adversários. E um enfermeiro que passava de motocicleta mimicou a demagogia de sua Secretaria da Saúde, sinalizando o blá-blá-blá aos nossos pobres ouvidos solidários aos nossos narizes e olhos castigados pela poluição ambiental.

Lembrei-me do relator do projeto de Código Florestal que tramita do Congresso: Aldo Rebelo diz não estranhar o fato do Green Peace se omitir na questão da poluição das cidades, acusando esta ONG internacional de prestar serviços a agricultura européia. E a prefeitura? Por que razão pelo menos não divulga um “disk denúncia” para coibir os poluidores? Pode também ser porque ela já sabe muito bem que existem e onde estão os terrenos baldios que proliferam os mosquitos da dengue, como aquele do último quarteirão da Rua Manoel Dias da Silva. Naquele quarteirão, além do berçário de mosquitos tem nada menos que uma creche dirigida pela Igreja Católica, uma indústria alimentícia, uma subestação da Embasa, um depósito de material pesado de construção dirigido pela própria prefeitura e dezenas de residências.

O motorista do carro de som do Renato retomou a direção de seu veículo, mas muita água continua rolando debaixo da ponte.

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