Livro objeto, e mensagem em garrafa.

Curso de Literatura – Secult/Funceb/Mec  ***** 4º módulo – A Palavra é Risco          Prof. Karina Rabinovitz

Centro de Cultura de Porto Seguro ***** Outubro de 2013

Criações, textos e fotos de José Édson de Vasconcelos.

Roda mundo.

Título de minha mensagem em garrafa

DISTRIBUIÇÃO

de paz e de pão

Curso Lit - Livro aberto

Sanduíche aberto

PAZ E PÃO

 

Não entendo

quem diz

que é feliz

e nada faz senão

apropriar-se das

riquezas do irmão.

Curso Lit - Livro fechado

Sanduíche Ouro de Tolo

ALIMENTO

 

Sustento

do corpo,

do pensamento,

da alma,

da calma.    

O QUE É O DINHEIRO

 

Vil metal!

Serve ao bem e ao mal.

Objeto de troca.

Sozinho,

não tem relevância.

Objeto de ganância.

Pode até curar doenças.

É o senhor das existências.

        Tristes aparências!   

Laura Bertelli (produtora e articuladora local do curso)  e Karina Rabinovitz (professora do 4º módulo - A PALAVRA É RISCO).

Laura Bertelli (produtora e articuladora local do curso)
e Karina Rabinovitz (professora do 4º módulo – A PALAVRA É RISCO).

O Grande Anão

Andre Kertesz - Sixth Avenue - 1959_176kCurso de Literatura
Centro de Cultura
Porto Seguro, Bahia, Brasil.
3º módulo – Forma e Sentido
27 a 29/09/2013
Professor: João Filho.
Aluno: José Edson de Vasconcelos.
Exercício: Livre descrição da foto ao lado
(“Sexta Avenida”) em prosa de ½ lauda.
 
 
 

O Grande Anão

Professor e aluno entram numa sala de exposição fotográfica. Chama-lhes a atenção uma antiga fotografia, com as indicações “Andre Kertesz – Sixth Avenue – 1959”. A obra sugere que há muito tempo o trabalho começa cedo na Sexta Avenida. Executivos se dirigem à labuta; alguns apressados, outros nem tanto, mas todos aparentemente muito focados em suas rotinas.

No primeiro plano da foto, contrastando com a performance dos executivos, calmamente um cão guia um sanfoneiro cego ao lado de uma mulher cega. A mulher tem a função de recolher donativos de generosos transeuntes, eventuais apreciadores do músico.

____ Uma fotografia para a história ____ diz o professor, apontando para a foto em preto e branco ____ Artistas à frente, como deve ser, inclusive o fotógrafo em espaço imaginário, e o anão generoso. Ele sim, certamente também é um artista; e executivos ao fundo com suas valises e luxuosos automóveis ____ completou, em sua análise sempre carregada de símbolos e de metáforas.

____ Assim era o mundo ____ concorda o aluno, também observando a fotografia ____ especialmente na ilha de Manhattan, em plena Nova Iorque de 1959, e continua sendo: Alguns trabalhos rendem muito dinheiro e uma boa dose de estresse; outros rendem algumas moedinhas e muito prazer. O que somos nem sempre é uma questão de escolha. É a vida que reserva o destino para cada um de nós; e o tempo se encarrega de consolidá-lo, salvo algumas rebeldias, nem todas exitosas.

____ Mas não é? ____ completa o professor, em contemplação ____ O anão é um artista. Provavelmente ele saiu de um espetáculo da Broadway naquela manhã, e solidariamente, destinou uma pequena parte de seu cachê ao artista da rua, que contribui para o alívio das tensões de cada dia. As tensões do funcionário que abre o guichê quando o artista fecha a cortina.

____ Positivo! ____  conclui o aluno, sorrindo. ____ O anão, no mínimo, é grande parte da fotografia, esta obra de arte que eternizou um bom momento logo no começo do dia. Como diz nosso Sebastião Salgado, “artista é também quem proporciona a boa imagem fotografada”.

Saudades do Matão – Feliz 89 anos!, Veizico.

Fotos do sertão mineiro no ano 2000:

Lajinha - pan da região

Cerrado mineiro. Município de Itaguara.

Distrito da Jacuba; município de Itaguara (MG).

Distrito da Jacuba; município de Itaguara (MG).

CLIQUE NO LINK ABAIXO PARA ACESSAR VÍDEO DA MÚSICA

http://letras.mus.br/tonico-e-tinoco/884289/

ALÉM de suas próprias histórias, músicas carregam casos de muita gente – alguns nunca contados.

A valsa “Francana”, por exemplo, foi composta em 1908, teve seu nome trocado para Saudades de Matão em torno de 1912, recebeu letra em 1938, chegou à Lajinha no final da década de 1950, com Tonico e Tinoco na vitrola do Curiango, hoje o Veizico, e segue o seu curso cheio de casos.

Um desses casos, que é parte da história do Curiango, eu vou contar aqui:

QUASE sempre à noite é que ele chegava de suas andanças, quebrando o silêncio da casa com os pesados passos de suas botas, anunciando pelo menos às crianças de até 5 ou 6 anos que o enérgico chefe da família reassumia seu posto. Era a hora do ameaçado acerto de contas com quem havia feito alguma coisa errada.

Sede da Lajinha, com pau de óleo onde crianças brincavam de balanço na década de 1950.

Sede da Lajinha. Em 1º plano, o pau de óleo onde crianças brincavam de balanço na década de 1950.

—Cê vai ver. Vou falar com seu pai! — ameaçava a Concinha, quando não encontrava outros meios para controlar a criançada.

Depois das chegadas, mesmo se nada houvesse de errado, os dias se seguiam sem diálogos com o temido Curiango, nem à cerca das andanças, nem nada. As viagens, curtas ou ligeiramente longas, eram um mistério que às crianças não cabia entender. Hoje eu sei que nelas o Curiango comprava e vendia pequenas partidas de gado, para obter algum lucro. Eventualmente ele aparecia em nossa precária propriedade rural com alguns garrotes ou bezerros que não havia conseguido revender, mas logo eram passados pra frente por causa da má qualidade das pastagens daquele pedaço de cerrado itaguarense.

O apelido “Curiango” só era usado por nosso amado vizinho e tio emprestado, o Chiquinho Costa, que nos voos mais longos do Curiango, contribuía com os trabalhos da rotina do ninho repleto de crianças e de adolescentes ___ Descascar e debulhar milho, levar ao moinho, tratar dos porcos, apartar vacas e bezerros, tirar o leite…

Chiquinho Costa talvez não aprovasse, mas também não protestava contra o modo de vida de seu amigo e concunhado, o Curiango, que era como a ave: misteriosa e notívaga, como diria o erudito Marcelão.

Dor nas cadeiras, ou na escadeira, se considerarmos alguma semelhança entre uma coluna vertebral humana e uma escadaria; vista deficiente em consequência de pó de telha caído em seus olhos, eram algumas das alegações do Curiango para evitar os trabalhos pesados da roça. Já o Chiquinho Costa não: era um homem forte, cheio de saúde e disposto ao trabalho pesado.

­Depois de uma de suas ausências, o Curiango foi visto com um acordeom vermelho de 80 baixos, instrumento em que ele logo aprendeu tocar Saudades do Matão, inspirado por Tonico e Tinoco. O acordeom, como bem mais tarde vim a saber, havia sido trocado por uma velha cabeça de jegue que ele tinha há mais tempo. Cabeça de jegue é como eram chamadas aquelas sanfoninhas de 8 baixos, com botões no lugar das teclas. Já o acordeom não! Era a rainha das sanfonas, com sua brilhante carenagem vermelha cristalizada, a coisa mais linda de nosso mundo. Era, para todos nós, um substantivo feminino. “A acordeom.” Mas ninguém podia por a mão.

Em algumas andanças o Curiango levava sua vitrola, seus discos e seu acordeom, provavelmente para misturar diversão e negócios, já que ninguém é santo, nem de ferro. Muito menos o Curiango! Quando o acordeom era deixado em casa, o corajoso Cu Branco, ao arrepio da autoridade totalitária do pai, apesar de seus apenas 5 ou 6 anos, ousava mexer no instrumento, certamente em conluio com a mãe, irmãs e irmãos mais velhos. Tanto o fez até aprender, como o pai, a correr o polegar e o indicador nas alvas teclas, conseguindo tocar a Saudades do Matão, mesmo que usando apenas as teclas brancas e dois dos 80 baixos.

Corajoso nem tanto, obviamente o pequeno Nenen (o Cu Branco) cagava de medo de o Curiango descobrir a façanha. Quando ficou sabendo, o Curiango fez vistas grossas e não ralhou com ninguém. Aliás, bater ele raramente batia. No máximo dava algumas sacudidas nas crianças entre suas pernas, seguidas de um baixo, mas enérgico “cala já”, que nos fazia engolir até soluços. Além disso, nada era necessário, pois as crianças mijavam de medo só de ouvir os passos pesados das botas que chegavam de viagem ou das botinas usadas nos dias seguintes.

—Não quero moranga amassada; quero é ovo de verdade.

—É o Letorelo outra vez! É gema de ovo, ó!

—Não! É moranga amassada. Eu quero é ovo!

Nestas alturas, se as botinas se aproximassem da cozinha, acabava logo a polêmica. É certo que Concinha, a boa mãe, sempre que podia, protegia suas crias, mas os ovos precisavam ser juntados para serem negociados com o mascate, mais citado como Comprador de Ovo. De tempo em tempo o Comprador de Ovo passava pelas casas da roça em sua mula, tocando um jumento abarrotado de mercadorias para venda ou troca.

Concinha vendia ou trocava os ovos por coisas raras ali na roça, como retalhos para vestir e agasalhar as crianças, molduras com desenhos do Sagrado Coração de Jesus, de santos e de santas, para expor nas paredes como alimento da fé e da devoção. Tinha aquele quadro em curiosa moldura 20×25 em 3D, com a terceira dimensão formada por réguas paralelas de vidro, dispostas entre o vidro da frente e o desenho de Nossa Senhora no fundo. Um só quadro mostrava três das Nossas Senhoras que protegiam a família: uma era vista do ponto frontal ao quadro, outra do ponto de vista da esquerda e outra da direita.

Mas, voltando ao acordeom… anos depois do aprendizado clandestino, já tendo se mudado para Itaguara com a família, o pequeno Nenen (o Cu Branco) chegou a se apresentar para grande público, tocando Saudades do Matão numa mostra coletiva de habilidades infanto-juvenis. Ele já tinha nove anos de idade, mas com aspecto de sete. Ninguém entendeu como é que ele, sentado em uma cadeira, diante do repleto Cine Teatro Regina, conseguia sustentar sobre suas finas pernas aquele belo instrumento que tapava todo o seu corpo magrinho e muito branco, e ainda conseguia abrir e fechar o fole.

Todo mundo só via aquelas mãozinhas correndo no teclado, e cantava acompanhando o solo das teclas brancas e de dois dos 80 baixos: “Quando lá no céu, surgir (…)”. Teve até bis exclusivo no final do evento.

Já o Curiango, que geralmente em casa não fazia graça, diante de alguma visita ilustre chegou a tocar e a cantar sua melodia predileta, a emocionante Saudades do Matão. A ele associo mais a primeira estrofe: “Neste mundo eu choro a dor / de uma paixão sem fim (…)”, correndo os dedos sobre o alvo teclado.

Tempos depois (e sempre alguma coisa acontece tempos depois), já em Belo Horizonte, com a voz pastosa de quem não consegue esconder as pingas que bebe, mas nunca deixa aparecer os tombos que leva, certa vez o Curiango me disse que tinha uma paixão.

—Por que tanta bebida?, meu pai!

—Meu filho, eu tenho uma paixão.

—Que paixão? Pensei. Mas não cheguei a perguntar. Primeiro porque não me era dado tal atrevimento. Segundo porque tive medo de não saber administrar resposta. Eu já havia passado da adolescência, mas ainda era muito retardado para entender as profundezas do amor; para entender que uma paixão é uma coisa que pode ser resolvida; para entender que uma paixão pode ser não somente por uma mulher, ou por um amor proibido; mas que pode ser também por um mundo diferente, por um lugar, por uma paisagem maravilhosa, por um ideal, por um estilo de vida…

Hoje, depois de 89 anos de altos e baixos, certamente mais baixos que altos, pode haver alguém com habilidade suficiente para abrir a caixa preta de uma paixão sem fim, ou talvez seja melhor deixá-la fechada como sempre foi.

Sabe-se lá quanta tormenta um coração aguenta! Diz Machado de Assis que os suicídios ocorrem menos pela gravidade dos fatos que pela interpretação momentânea. O que pode ser grave em certo momento pode não passar de uma piada em outro. Depende do estado de espírito do protagonista na hora da constatação do fato.

É cruel imaginar que o sofrimento se serve ao aperfeiçoamento.

Sempre haverá a dúvida se a pessoa que sofre mais é a que ama sem ser correspondida ou a que aceita ser amada sem correspondência.

Contudo, quase ninguém quer que a sorte lhe tire desta grande dor, mesmo que o alívio prometa o surgimento, lá no céu, de uma peregrina flor.

 

 

Abril de 2013 – Clique para ouvir novamente “Saudades de Matão”:

http://letras.mus.br/tonico-e-tinoco/884289/

Água do joelho

Enquanto muitas cidades crescem sem os necessários equipamentos públicos, aqui em Porto Seguro ainda sofremos o paliativo da quadra esportiva construída em praça de lazer, onde nunca falta também um quiosque para um apadrinhado do prefeito de plantão montar um botequim.

Verdadeiras praças de esportes ou centros esportivos, nem pensar. Parecem coisas somente imagináveis em outro planeta. Centros de convivência, então, onde poderiam ser desenvolvidos projetos culturais, relacionamentos interpessoais, ou até mesmo serem oferecidas simples e decentes instalações sanitárias ao público… é demais para o padrão de compromisso de nossos governantes.

É por isto que o motorista do carro de som do Renato parou justamente em frente a um terreno baldio. O motorista atravessou os fartos montes de entulhos e de lixo, depositados no terreno por moradores mal educados e sem fiscalização, e se embrenhou no matagal para tirar água do joelho.

Neste ínterim, o carro de som do Renato continuou anunciando a campanha de combate à dengue: “Receba bem o agente de saúde! (…)”. Ouvindo isto, os milhares de mosquitos que se amavam nos pneus e embalagens pet espalhadas pelo terreno baldio devem ter comemorado o fracasso da estratégia de seus adversários. E um enfermeiro que passava de motocicleta mimicou a demagogia de sua Secretaria da Saúde, sinalizando o blá-blá-blá aos nossos pobres ouvidos solidários aos nossos narizes e olhos castigados pela poluição ambiental.

Lembrei-me do relator do projeto de Código Florestal que tramita do Congresso: Aldo Rebelo diz não estranhar o fato do Green Peace se omitir na questão da poluição das cidades, acusando esta ONG internacional de prestar serviços a agricultura européia. E a prefeitura? Por que razão pelo menos não divulga um “disk denúncia” para coibir os poluidores? Pode também ser porque ela já sabe muito bem que existem e onde estão os terrenos baldios que proliferam os mosquitos da dengue, como aquele do último quarteirão da Rua Manoel Dias da Silva. Naquele quarteirão, além do berçário de mosquitos tem nada menos que uma creche dirigida pela Igreja Católica, uma indústria alimentícia, uma subestação da Embasa, um depósito de material pesado de construção dirigido pela própria prefeitura e dezenas de residências.

O motorista do carro de som do Renato retomou a direção de seu veículo, mas muita água continua rolando debaixo da ponte.

A Alface Valente contribui para a boa formação escolar

Com apoio do Banco do Nordeste, a escritora Alda Andréia Therkovsky lançou seu livro interativo infanto-juvenil “A Alface Valente”, em noite de autógrafos, no Centro de Cultura de Porto Seguro.

O livro é o primeiro de 4 volumes da coleção Semeando nas Escolas. Além d’A Alface Valente, a coleção tem também “Margarida no Jardim”, “Meu Amigo Jatobá”, e “A Melancia Quadrada”, representando uma grande contribuição para a boa formação escolar, à medida que busca sensibilizar os leitores para questões ambientais, humanitárias, éticas e cidadãs, além de envolver arte, nutrição e muitos outros assuntos relevantes, em um processo eminentemente multidisciplinar.

Ilustrado por Tuchê Gama, o livro alterna desenhos sem cores e coloridos com os mesmos giz de cera que compõem um kit que o acompanha. O kit é contido por um estojo de plástico que sugere ser usado como vaso para o plantio de sementes de alface, que também acompanham o livro, sendo que a tampa do vaso serve para aparar o excesso de água da irrigação. A coleção de giz de cera serve para que os leitores tentem colocar os desenhos preto e branco no mesmo padrão dos coloridos, completando a interatividade.

A escritora conta, com satisfação, que os livros doados ao ensino público estão sendo distribuídos gratuitamente a estudantes das escolas públicas rurais e urbanas e muito bem aproveitados no projeto da Secretaria da Educação, “Aprendendo Com a Horta Escolar”.

A noite de autógrafos, realizada em 14/09/2010, reuniu cerca de 200 amantes da literatura em concorrido coquetel, com a predominância de coordenadoras pedagógicas e diretoras das escolas públicas que receberam gratuitamente 1.500 kits do primeiro volume da coleção Semeando nas Escolas.

Professoras e coordenadoras da rede pública receberam 1500 kits da coleção Semeando nas Escolas.

A obra de Alda contribui muito para a formação de cidadãos.